06/10/2015
Na medida dos encontros

Lá estava eu em pé durante uma conferência, esforçando-me para acompanhar cada palavra, cada consideração, como se eu pudesse melhorar minha compreensão e minha fala através do suspiro de cada palestrante.

Eis que adentra na sala uma moça e algo me parecia familiar: os traços do rosto e o modo de sentar ao chão sem se importar com as reverências francesas. Nossos olhares se cruzaram e talvez ela tenha pensado o mesmo sobre mim.

Chega o momento do intervalo e saio para o almoço, meu telefone toca, era uma amiga de um amigo, que foi até a conferência para encontrá-lo, e assim como eu, também não o havia encontrado. Esse amigo, que já tinha me enviado uma mensagem explicando sua ausência, me aguardava para o almoço.

Proponho a ela nos encontrarmos para almoçarmos com nosso amigo e digo assim:

___ Você vai saber quem sou, pois estou de calça vermelha.

Ao que digo isso, ela me diz:

____ Ah, já sei quem você é...

Retorno 20 passos para trás e não é que ela era a moça que me parecia familiar!?!

Nos apresentamos e ela me diz:

____Sabia que você era brasileira, pois francês não usa calças vermelhas.

Solto uma bela gargalhada e conto sobre minhas percepções acerca de sua, também, brasilidade.

A história segue: encontramos com nosso amigo em comum (que adora camisas e calças coloridas) e uma nova, bela e sincera amizade nascia a partir desse dia…

A experiência estrangeira possui tantas perspectivas que daria para escrever um tratado. É bem possível que eu volte a esse ponto inúmeras outras vezes, pois como uma áurea ele me acompanha cotidianamente.

Nessa experiência específica, para além de todas as “coincidências” e desfechos felizes de se conquistar uma nova amizade, o que se revela é a potencialidade do encontro como produtor de novos caminhos. Uma série de acontecimentos positivos se sucederam após esse dia: contato com novas pessoas, troca de informações e compartilhamento de experiências.

Para além de estarmos vivendo a mesma circunstância de vida, o que está na base é um olhar que identifica o outro como um igual independente se somos do Norte, do Sul, do Leste ou Oeste e, por assim ser, permite que qualquer diferença seja suplantada à favor de uma acolhida.

Em tempos de tanta intolerância, de negação do direito do outro de ir e vir, de tentativas de segregação porque não se tem a mesma origem ou se vive em condições sociais distintas aposto no exercício de um olhar estrangeiro, aberto e livre de tantos automatismos do cotidiano como via que pode nos permitir viver encontros repletos de vida.

Pois quem disse que não nos encontramos na necessidade de afeto, no sentimento de medo, na dor, na angústia, na ânsia por realização, na busca por paz e por um lugar no mundo para chamar de seu…

Aposto nesse caminho como via de aproximação entre as pessoas e como meio de exercício da alteridade. Aposto nesse caminho como meio de acesso a novos aprendizados e de ampliação da maneira de ver e entender o papel de cada um no mundo. Aposto nesse caminho como antídoto ao isolamento que adoece e faz sofrer. Aposto nesse caminho como exercício obrigatório para um fitness da alma.

Já está mais do que na hora de um “medida certa” no coração do homem!

 

Dedico esse texto à Fabiana Vidal (paraibana), Sahmaroni Rodrigues (cearense), Samantha Borges (gaúcha), aos estrangeiros do l’ARC e nossos encontros genuínos.


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